31/01/2009

Le Déserteur

Há palavras que estão de tal forma associadas a uma melodia que só se conseguem ler cantando.

Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir

Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers

Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir

S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer

(Boris Vian)

30/01/2009

Monumento ao sapato em Tikrit (Iraque)

Uma semana depois da sua saída da Casa Branca o ex-presidente Bush (isto soa bem) já tem o monumento que merece. Uma escultura de uma tonelada em cobre em Tikrit mostra o modelo do sapato que o jornalista Muntadar-al-Zeidi atirou ao George W. durante a sua última visita ao Iraque.

http://anacruses.blogspot.com/2008/12/mais-vale-tarde-do-que-nunca.html

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=385246&tema=31

29/01/2009

Morte



Se a morte é a única coisa certa na vida 

É melhor termos uma boa relação com ela


28/01/2009

Jackson Pollock - "Number 1 (Lavender Mist)" - 1950


Abaixo o cavalete, pincéis para quê!?
Hoje Jackson Pollock (1912 - 1956) fazia anos.

26/01/2009

"Adagietto" da 5ª Sinfonia - Gustav Mahler (1850-1911)

Depois de ver (mais uma vez, nunca cansa) "Morte a Venezia", obra prima de Lucchino Visconti baseada no livro de Thomas Mann, acho que na campanha Eleição Instrumento de Corda não pode faltar este "Adagietto" de Gustav Mahler, escolhido como banda sonora do filme. Um hino!

O Ano do Boi (ou do Búfalo)


Hoje começa o novo ano chinês, o Ano do Boi (ou do Búfalo).
Kung, Hei, Fat, Choy! (Respeito, Felicidade, Fortuna, Riqueza!).
"O Boi é lento, mas a Terra é paciente."

24/01/2009

Nothing to fear but fear itself?


Uma frase famosa do discurso inaugural de Presidente Franklin Delano Roosevelt no dia 4 de Março 1933, ou seja durante a Grande Depressão (foto) dos anos '30: "The only thing we have to fear is fear itself", (http://www.youtube.com/watch?v=vvonsjqE2a4).
Lembrei-me desta frase, citada várias vezes em relação à ceremónia de inauguração de Barack Obama. Será que a frase ainda serve como encorajamento em tempos de crise!?
As notícias de ontem provocaram uma Sexta-feira Negra, especialmente no Norte do País:
- Declaração de falência da Qimonda-Alemanha, empresa-mãe e único cliente da fábrica de chips e semi-condutores Qimonda em Vila do Conde (quase 2000 trabalhadores).
- Despedimento de 2000 trabalhadores na PSA-Peugeot/Citroën em Vigo, acontece que 20 fábricas de componentes em Portugal são fornecedores desta empresa automóvel. Comentário de um sindicalista: "Para cada posto de trabalho em Vigo existem três postos de trabalho em Portugal...", na fábrica PSA-Mangualde 460 ficaram para já sem trabalho, na fábrica de componentes Sodécia em Guarda há "lay-off" até Junho para os mais de 100 trabalhadores.
- Fechou a fábrica de calçado Eccolet em Sta. Maria da Feira (tinha 180 trabalhadores).
- Fechou a fábrica téxtil Intipor em Amares (140 no desemprego).
- 300 trabalhadores das empresas corticeiras em Sta. Maria da Feira em greve (salários em atraso).
- Philips vai fechar a última fábrica em Portugal (Ovar, 70 trabalhadores).
- ??

23/01/2009

Ilustres empenhados na campanha pela guitarra e pelo contrabaixo.

Parece que as eleições para "O Cordofone" chegaram às américas. A oito dias do encerramento da urna, temos aqui no Anacruses, a fazer campanha pela guitarra e pelo contrabaixo, Egberto Gismonti e Charlie Haden.

First Song

21/01/2009

Violino e Piano - Beethoven e Neruda

Apesar de estar a fazer campanha pelo violoncelo e pela harpa, não posso deixar de enaltecer o violino e o piano, pelas suas qualidades e popularidade. A sua conjugação é perfeita quando bem interpretada.

Fica aqui uma "soneca" para violino e piano do Ludvico com um poema do pablo.

"A música contém toda a poesia"

20/01/2009

The Art of Piano: Glenn Gould plays Bach - Partita nº 2 in C minor BWV 826










"The Art of Piano - Great Pianists of the 20th century" é um DVD documentário (editado em 1999) que gostava muito de ter em casa. Aqui um fragmento do loucamente genial Glenn Gould, gravado em 1959 num ambiente caseiro, o que dá ao registo uma emoção muito especial.
O conteúdo do DVD em http://www.skyarts.co.uk/music/article/the-art-of-piano .
Será possível, com um pouco de paciência, encontrar tudo no YouTube!?
Pelo menos mais uma das outras peças no DVD já mencionei no blogue (Anacruses, 30 de Agosto 2007): uma sonata de Scarlatti, interpretada por Arturo Benedetti Michelangeli, http://www.youtube.com/v/QXHUIpNCu2k.

18/01/2009

Allgarve, o futuro cão de Barack Obama!?


Uma semana depois da eleição de CR7 o país está prestes a ficar parado novamente.
Barack Obama "narrowed down" a escolha do seu novo cão: "a portuguese water hound or a labradoodle, a medium size dog": http://www.youtube.com/watch?v=pgVhorxlcG8
A Entidade Regional do Turismo do Algarve não perdeu tempo e emitiu de imediato um comunicado de imprensa: "Cão d'água português está pronto para viajar!"
Anúncio um pouco prematuro, pois o tal cão ainda não existe, ainda nem sequer foi concebido.
"Coral", a cadela escolhida para ser a hipotética mãe de um cachorro d'água a ser oferecido à Casa Branca, vive no Parque Natural da Ria Formosa (Olhão), tem quatro anos, é campeã de beleza, é "vaidosa" e "muito meiga". Neste fim de semana ela deve cruzar com "Kai" que tem três anos, é "brincalhão", "adora crianças e é um excelente cão de guarda". Caso a cadela emprenhe, o parto acontecerá dentro de dois meses.
"Mas", frisa Carla Peralta, a dona de "Coral", "eu não vou obrigá-la a cruzar, ela até pode rejeitar o namorado escolhido". Uma hipótese que está fora de questão para o presidente do Turismo do Algarve, António Pina: "Estamos disponíveis para ir até aos EUA e entregar em mão um cachorrinho d'água e se o Presidente dos EUA pedir uma sugestão de nome, vamos sugerir o nome "Algarve" (notícia Agência Lusa).
So que aí deve intervir o Ministro Manuel Pinho: "Allgarve, of course!"

Inland Empire (2006) & Eraserhead (1977) - David Lynch






Grande madrugada de cinema hoje para os amantes da obra de David Lynch: na RTP 2 a sua última e a primeira longa-metragem, entre as duas um intervalo de quase 30 anos.

"Inland Empire" - lindas imagens ("the film is like an art-installation, the destination is less significant than the journey", Jonathan Ross - BBC), grande papel de Laura Dern, actriz fetiche de Lynch e uma belíssima banda sonora (temas do próprio Lynch, Dave Brubeck, os compositores polacos Penderecki e Lutoslawski e no final a canção "Sinnerman" de Nina Simone, a ver em http://www.youtube.com/watch?v=GfCCIbIapMw ). Aqui um vídeoclip com fragmentos do filme.

"Eraserhead" - o primeiro filme de horror de Lynch e o preferido de Stanley Kubrick. Aqui uma cena emblemática com a canção "In heaven everything is fine" ("Lady in the Radiator"). Famosa é também a "chicken dinner scene": Henry (Jack Nance) é convidado para jantar na casa dos pais da sua noiva Charlotte (futura mãe de um bebé-mutante...), a ver em http://www.youtube.com/watch?v=bBpd5xy-vCY (aviso: não aconselhável a pessoas sensíveis).

17/01/2009

Don Quixote, pela Companhia do Chapitô

Relembrando que está em cena "A Tempestade" no Chapitô, deixo aqui um vídeo de um espectáculo estreado em 2002, e que já não se vai fazer mais. Morreu de velho mas feliz, depois de ter corrido mundo e proporcionado muitas gargalhadas.

Espectáculo Integral. 60 minutos para quem quiser.



15/01/2009

Coração acordeão - Alexandre O'Neill (1946)



Não o amor não tem asas

se tem asas são as mãos

que se enlaçam para a festa

maravilhosa do corpo

e entre elas o coração

coração acordeão

14/01/2009

Ópera do Tejo



Ao pesquisar imagens sobre as ruínas do Teatro Real do Paço da Ribeira, mais conhecido como Ópera do Tejo, descobri aqui que já existe uma versão 3D disponível no second life. Inaugurado em Abril de 1755 e construído  com todos os luxos e tecnologia disponíveis, deve ter sido um teatro maravilhoso e que nem chegou a fazer história.
Estas são algumas imagens que se podem encontrar em operadotejo.org  
E parece que em breve irá estar incluido no projecto THEATRON





O que eu acho estranho é termos de ir ao secondlife para visitar o espaço virtualmente. Será que dentro em breve apenas iremos a teatros e museus virtuais?




13/01/2009

Direito a tempo de antena



(Peço a compreensão dos caros sócios-bloguistas: isto pode muito bem ser uma consequência de fazer três meses teatro de intervenção "Imaculados" (sinopse post 4 de Dezembro 2008).
Depois de uma mesa redonda muito interessante, hoje no Instituto Alemão, com a escritora Dea Loher, sinto-me impulsionado a produzir mais um post sobre um assunto da actualidade política. É como diz a diabética Dona Dulce nos "Imaculados": "O que tem de sair, tem de sair, é o que eu também estou sempre a dizer à minha perna (gangrenada)".


Ontem vi num "talkshow light" da RTP uma entrevista com Fernando Contumélias, um dos autores do livro "Polícia à portuguesa" (ed. Livros d'Hoje).
Em dezenas de entrevistas com elementos da PSP o livro mostra "um retrato dramático" de uma polícia "mal preparada, desmotivada e sem condições de trabalho".
"Homens e mulheres que chegam a passar fome, que tem uma vida familiar desestruturada, problemas de saúde, sujeitos à regras que nem sempre compreendem, alvos fáceis de processos disciplinares e/ou criminais. Polícias que têm ordem de não disparar nas perseguições a criminosos. Que tentam fazer o seu trabalho com armas velhas, balas contadas, coletes muito pouco a prova de balas. Que conduzem carros que não passariam numa vulgar inspecção e cujos motores muitas vezes rebentam em plena caça ao ladrão! Que não acertam num alvo a não ser por acaso...." (sinopse da editora).

O livro foi editado há dois meses e apresentado, com bastante divulgação na comunicação social, no dia 18 de Novembro no Palácio Foz..... pelo antigo Ministro da Administração Interna (!) Ângelo Correia, na presença do actual Ministro da Administração Interna(!!) Rui Pereira....
(a ver em http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=373649%tema=27 ).

Suponho que os autores queiram dar um contributo sério à discussão sobre as forças policiais. Sendo assim, organizar uma apresentação do livro com políticos que fazem ou fizeram parte do Governo (e como tal responsáveis para o estado das coisas descrito na obra) não me parece uma opção muito feliz.
É um tipo de ceremónia que faz lembrar o conceito de "tolerância repressiva", lançado nos anos '60 pelo filósofo Herbert Marcuse (in "One dimensional man", 1964): "A tolerância com os dissidentes da sociedade liberal tem o propósito de servir não para a emancipação de grupos e pessoas explorados, mas para adormecer os impulsos libertários. Com isso, torna-se repressiva, embora sob a aparência de libertadora."

Hoje vi publicado um manifesto que de certeza não vai ter o mesmo direito a tempo de antena na comunicação social que teve o livro acima referido: "Mais um jovem negro e pobre assassinado pela polícia", comunicado da Plataforma Gueto sobre um jovem negro de 14 anos, baleado pelo polícia no dia 4 de Janeiro na Amadora, texto em http://ait-sp.blogspot.com/2009/01/mais-um-jovem-negro-e-pobre-assassinado.html .
O comunicado acaba: "Apelamos a mobilização de todos os irmãos contra a violencia policial, a propaganda racista e contra a opressão autoritária. Se a impunidade, o conformismo e o silêncio continuarem os assassinatos continuarão tambem". (assinado: Plataforma Gueto. Sem Justiça não haverá Paz).
Qualquer semelhança com a situação na França, onde se instalou um clima que deu origem a motins nos centros urbanos, não deve ser coincidência...

A situação como descrita no livro "Polícia à portuguesa" pode ser dramática, mas não serão igualmente dramáticas as consequências desta situação para a actuação das forças policiais, nomeadamente em áreas problemáticas como a periferia da Grande Lisboa?

12/01/2009

"A Tempestade" pela Companhia do Chapitô


Estreou, dia 8 de Janeiro, "A Tempestade" - mais uma criação colectiva da Companhia do Chapitô com a direcção de John Mowat. Desta vez o pretexto para a comédia visual é um clássico de Shakespeare.

É uma história de magia, monstros e espíritos numa ilha encantada num mar distante. Conta o que aconteceu nesse mundo de sonho, quando a inocência, o amor, o medo, a malvadez e a vingança entram em choque sob o poder de um grande mágico.

A Tempestade
Autoria: Criação Colectiva Companhia do Chapitô
Encenação: John Mowat
Interpretação: Jorge Cruz, Marta Cerqueira, Tiago Viegas

Até 1 de Março, de Quinta a domingo às 22h00 na Tenda do Chapitô

Reservas: 218 855 550

09/01/2009

Últimos Dias Imaculados


Acaba já este fim-de-semana a temporada de "Imaculados" no Teatro Aberto. Dea Loher, a autora, virá assistir ao último espectáculo (dia 11) e estará disponivel depois para uma sessão aberta.

Como prometido, aqui fica parte do texto que escrevi para o programa:

"Escrever sobre música é como dançar sobre arquitectura" (John Cage)

E eu acrescentaria que o silêncio é onde se edifica o som. Diria mesmo: "In principium erat silentium". E é na escuta do silêncio que encontramos o som que nos harmoniza e afina com os demais.

     Impressões sobre o texto

Depois do século que matou Deus e as Ideologias utópicas fica-nos o quê?

Já ninguém acredita que pode mudar o mundo e o que fica é o vazio da existência sem  uma razão. As ideologias e as instituições desmoronaram proporcionando-nos um espelho para nos observarmos, e com isso podermos mudar e evoluir. Mas já estávamos demasiado cegos para aprendermos com esse reflexo. Já não era credível. Os olhos com que observamos o mundo são cada vez menos nossos e a virtualidade do que vemos distancia-nos cada vez mais da condição humana. Lutar por alguma coisa ou contra ela são dois lados de uma mesma moeda que já não tem  valor. Sem fé e sem esperança torna-se difícil não se estar perante o abismo.

Será que só nos resta escolher entre a cegueira e o desespero?

Penso que a saída está numa entrada. Uma entrada em nós próprios. Local onde é realmente possível transformar e melhorar. Local onde ainda se pode encontrar tudo aquilo que não se encontra fora.

Se o mundo é o reflexo de nós próprios, só o transformamos se nos transformarmos primeiro.

E é aqui que entra o silêncio. É aqui que começa tudo...

"Grito e choro por Gaza e por Israel"


Junto-me aos bloguistas que já chamaram a atenção para o texto publicado por Fernando Nobre (Médicos sem Fronteiras, fundador da AMI - Assistência Médica Internacional) em relação aos acontecimentos dramáticos na Faixa de Gaza. Concordo!

08/01/2009

Homenagem a Joaquim Castro Caldas (1956 - 2008)

Só agora, através do blogue "O País das Mil Ervilhas", eu soube da morte do poeta, diseur e crítico Joaquim Castro Caldas.

Célebres eram as suas noites de poesia nas segundas feiras no Café Pinguim no Porto, mas também na vida nocturna lisboeta ele deixou marcas: em 1995-1996 no Bar do Chapitô (noites de poesia nas quintas feiras na companhia de Paulo Campos dos Reis) e mais tarde num bar perto do Conservatório Nacional no Bairro Alto.

Devolução dos cravos

"um menino uma vez
o tal que há em nós
sujo de liberdade
todo na ponta dos pés
tentou enfiar um cravo
no cano de um G-3

hoje um homem talvez
menino velho sem voz
democrata que se farta
mete o cravo na culatra
e puxa-a de pé atrás
com medo que o seu país"

(do seu livro "Convém Avisar os Ingleses", Quasi edições, 2002)

Um dos seus maiores sucessos como "diseur" era a declamação do poema "As Velhas" http://osabordacereja.blogspot.com/2007/01/as-velhas.html .

Mas para mim pessoalmente o cúmulo foi a sua performance sobre uma carta que em 1987 dirigiu à Fundação Gulbenkian, um texto que não perdeu nada da sua actualidade...

"Subsídio para o suicídio".

"Um dia - como quase todos - acordei sereno estremunhado à noite. Estava farto do mundo em geral e de Portugal em particular. A cortesia era: vou-me matar. Saiu-me isto mas houve uma resposta porreira do outro lado. O que é mais divertido é que a comunicação social estrangeira percebeu que eu estava a brincar.
Portugal não."


J.C.C.
Rua da Lapa XX-X,
1200 Lisboa

Ex.mo Sr.

De certa forma desenquadrado de e epidermicamente hostil ao tão inculto Surrealismo nacional (movimento irreversível que consiste em Surrar - O - Realismo às Minorias Absolutas através das Maiorias Anónimas) e na fiel linha lunática, tradição suicida e corrented'ar estética da Poesia Portuguesa, venho por esta brevíssima e humilde missiva solicitar à Fundação Gulbenkian, sempre tão prestável e atenta, uma urgente audiência (na pessoa da V. Ex.a com quem, como tenho vindo ao longo dos anos a constatar e sem qualquer lisonja hipócrita, as novas gerações mais prezam o diálogo civilizado e o respeito pela inteligência) audiência essa destinada à concessão de um mísero (face aos vossos fartos recursos) subsídio que, não sendo por certo habitual pedir nem provar, muito honraria o brilho da vossa já quase secular instituição, contribuindo para uma nobre, sã, airosa, decidida e eficaz saída do meu penoso caso lírico pessoal.

Assim sendo, e não ousando abusar muito mais da infinitamente piedosa e tolerante curiosidade de V. Ex.a, passo d'imediato a expor o detalhado rosário de inconfessáveis e vis matérias primas ou sinistros objectos que me propus atribuir um (eventual) orçamento: um revolver (50 mil escudos); munições adequadas (20 mil escudos); um socrático litro de sicuta, um cálice de cobre e uma rodela de manga, para a hipótese de a primeira tentativa se amedrontar (P.V.); algum cianeto e bastante nitroglicerina, para a hipótese da segunda tentativa não passar de um romântico aperitivo ou de uma inconsequente chantagem moral (preço a regatear); cremação do corpo e lançamento de cinzas ao Tejo (500 mil escudos); cachet de 20 palhaços da Companhia de Circo de Lisboa para a citada ceremónia fúnebre (250 mil escudos); cachet da Banda dos Bombeiros Voluntários que chegarem primeiro executando a canção das Crianças Mortas de Mahler, na ocorrência (500 mil escudos, com descontos para poetas e afins); arredondando a coisa deve andar lá perto dos 1000 contos, o que é isto nos tempos que vai correndo? Convenhamos que toda a Morte que se estime não olha a meios para dignificar os seus fins...

Esperando contribuir coma minha modéstia para uma lufada na monotonia da correspondência de que, desejo temê-lo, V.Ex.a será vítima, e desde já agradecendo o vosso empenho generoso, sem mais por ora me subscrevo, com admiração pela paciência de santo de V. Ex.a, exalando confiança, irradiando ansiedade.

Joaquim Castro Caldas



E aqui a resposta....

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa - 1, PESSOAL

Ex.mo Senhor Joaquim Castro Caldas
Rua da Lapa XX/X
1200 Lisboa

Lisboa, 31 de Julho 1987

Caro Senhor,

Tenho a honra de acusar a recepção da carta da Vossa Senhoria, sem data mas com lata, na qual solicita subsídio que lhe permita morrer com pompa (e não troco os bb pelos pp) e circunstância.

De início interroguei-me sobre a questão de saber em qual dos quatro fins da Fundação Gulbenkian (artísticos, educacionais, científicos e caritativos) tal desiderato se podia inscrever, mas rapidamente cheguei à conclusão de que em qualquer deles, ou em todos concomitantemente, se inscreveria.
Pensei então em pedir o aliás douto parecer da Agência Barata (se bem que intuitivamente eu adivinhasse que ela qualificaria o orçamento apresentado de sumptuário), mas referi, antes disso, procurar nos nossos arquivos antecedentes pedidos para o mesmo fim e verifiquei sem surpresa que - dada a premente necessidade de reduzir as nossas despesas - todos os numerosos apoios financeiros requeridos para viagens alternativas para Inferno, Céu ou Purgatório foram invariavelmente negados e, como é óbvio, não me parece curial a criação de precedentes.

Nestes termos, sinto informar a V. Ex.a que não é possível atender a solicitação que me dirigiu, ainda que lamente o consequente facto de ficar condenado a viver mais alguns anos. A não ser que - se me permitir a sugestão - opte pela solução da corda, do gancho e do banquinho, solução que, por ser barata, poderá até ser apoiado pela Secretraria de Estado da Cultura. Ou ainda (porque não?) - e eis uma variante absolutamente gratuita - a solução do lago do Campo Grande, desde que obtida prévia autorização do Senhor Eng. Nuno Abecassis.

Entretanto sou de V. Ex.a
Atentamente até ao Outro Mundo,
e muito mais depois,

Pedro Tamen


07/01/2009

Nicanor Zabaleta - O Harpista Basco

Continuando a campanha pela Harpa, deixo-vos as "variações sobre um tema de mozart" do Glinka, tocados pelo grande harpista basco  Nicanor Zabaleta que (acabei de ver na wikipedia) faria hoje 102 anos.

05/01/2009

Vota HARPA

Parece que a campanha para eleger "O Cordofone" (coluna da direita) está a sofrer um "surto votal" oriundo de outros blogues. Primeiro começou o ataque ao voto ao violino, vindo do blog do Fernando Vasconcelos e depois seguiu-se o pianoman, que num blog de pianistas fez um apelo às armas.

É assim mesmo a democracia bloguiana...


Mas desta vez venho apelar ao voto no Instrumento de Corda por Excelência (ICE) - a HARPA. 
A HARPA é a representação pura do som da corda, é a forma resultante da matemática primária da divisão do comprimento de onda, do encontro natural com os harmónicos. O seu som puro e cristalino, remete-nos para algo pacífico, quase divino.

Por isso eu digo. Não se deixem levar por lobbys de instrumentos muito popularizados.

VOTEM HARPA.

Izthak Perlman & Yo Yo Ma - Humoresque nº 7 (Dvorák)

Depois de ouvir a música no blogue "A Lua Flutua" (post de anteontem) apeteceu-me ouvir e ver os intérpretes... São mais uns votos para violino e violoncelo!

Vídeo tirado do DVD "Dvorák in Prague - A Celebration" (1993), concerto de comemoração do 100º aniversário da obra "From the New World", a sinfonia mais conhecida do compositor checo.

04/01/2009

Interludium non musicale (pois como dizia Seneca: "Varietas delectat")


Confusão em Famalicão (clicar para ampliar). Ou haverá tanto emprego lá!?
Visto durante a digressão da peça "A Fábrica do Nada" (Artistas Unidos, Fevereiro 2008)

03/01/2009

Viva Guilhermina, mas também: Viva a Viola da Gamba!








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"Não era aconselhado às mulheres tocarem violoncelo (mas sim a Viola da Gamba), até ao fim do século XIX, por pretensas razões de indecência. Este argumento machista felizmente caiu em desuso. Uma das primeiras imagens existentes no princípio do século (XX) de uma violoncelista é Guilhermina Suggia (quadro de Augustus John, 1923), a primeira mulher de Pablo Casals".
(http://www.harmonie.net/us/index.html , discoveries - acoustic - the cello endpin )

Alegadamente foi uma "questão de espigão", esta discriminação entre violoncelo e viola da gamba como instrumento "aconselhável" para mulheres na Era Vitoriana. Eu gosto dos dois instrumentos, por isso faço uma discriminação positiva a favor da Viola da Gamba ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Viola_da_gamba ).
Toda a gente já conhece o filme "Tous les matins du monde" (1991) com as interpretações de Jordi Savall (música de Marin Marais e Jean de Sainte Colombe), um fragmento em http://www.youtube.com/watch?v=pnriefsHKsQ .
No vídeo aqui acima uma peça do alemão Carl Friedrich Abel (1723-1787), interpretada por Nima Ben David.

Direito de Antena - Violoncelo

VIVA O VIOLONCELO!

Dos instrumentos de corda friccionada é para mim o que tem o som mais bonito.

Descendente da  viola da braccio (assim como o violino e o contrabaixo) e não da viola da gamba (viola de pierna). Nasceu há quase quinhentos anos e passou por vários tamanhos e afinações,  , até ao principio do sec. XVIII, quando Stradivarius normalizou a sua  forma, adquirindo um aspecto muito similar ao de hoje. Foi a partir daí que o violoncelo se espandiu largamente, inspirando compositores e aliciando os vituosos instrumentistas.
Um instrumento musical que fala por si.

O post de 22 de Outubro, tem várias interpretações  da suite nº 1 do J.S.Bach, inclusive a do Casals (quem achou as partituras numa loja de música em Barcelona, que até à data eram quase desconhecidas e referenciadas como estudos). Na sequência desse post, a Susana Serrano (também violocelo-partidária) encontrou uma versão maravilhosa do Paul Tortelier, e colocou-a no seu blog.

E é esta maravilha: masterclasse + suite (minuto 6:26)



02/01/2009

Viva o Cymbalon!




Penso que o cymbalon (ou saltério) não vai ganhar muitos votos na Eleição Instrumento de Corda.

Hoje em dia o instrumento aparece muitas vezes associado à música cigana (por exemplo Taraf de Haïdouks), mas neste vídeo (ou)vimos o romeno Robert Miu numa virtuosa interpretação do "Caprice 24" de Paganini (ouvir a execução em violino por Yehudi Menuhin no post Anacruses de 1 de Outubro 2008).

Eleição do Instrumento de Corda


Janeiro é mês de votação aqui no Anacruses para eleger "O Instrumento de Corda". (urna na coluna da direita)

A escolha dos instrumentos que vão a votos foi feita sem nenhum critério. Tendo apenas sido estabelecido um limite de 10 candidatos, mais a opção "primos". 

A colocação polémica do Piano (idiofone) no meio  dos cordofones foi propositada, pois de outra forma teria de ir a votação com os instrumentos de percussão ou, como vai acontecendo, ser considerado "Instrumento Único", o que soa a "Ditadura Musical".

Pode-se votar em vários instrumentos e mesmo sugerir outros na caixa de mensagens deste post.

Eu, admito já que vou fazer campanha pela Harpa e pelo Violoncelo.

01/01/2009

Danúbio Azul

Vou aplicar a "receita para a crise" do caro visitante Fernando Vasconcelos (post de ontem) e começar 2009 com uma valsa do tradicional concerto de Ano Novo em Viena (aqui na versão do concerto do ano passado).

A valsa "Danúbio Azul ("An der schönen blauen Donau") é considerada a obra prima do rei das valsas Johann Strauss (filho) e estreou em Viena num baile de Carnaval em 1867.

Conscientĭa



CONSCIÊNCIA para cada Ser Humano é o que eu desejo.

(principalmente aquela que já existe antes da reflexão)