19/03/2010

"Cálice" - Chico Buarque/Milton Nascimento (1978)

Ainda no rescaldo da estreia ontem de "O que faz falta" no Teatro Villaret: a minha música preferida foi "Cálice", composição de Chico Buarque e Gilberto Gil, do álbum "Chico Buarque" de 1978.
Ouvi esta música pela primeira vez no Outono de 1985, a sair dum pequeno rádio transistor numa mansarda em Antuérpia, onde vivi durante um ano como músico de rua, belos tempos!
Foi pouco antes da minha primeira viagem (de três meses) a Portugal, pois eu já estava a fazer um curso português para principiantes. A música tocou-me logo profundamente e tentei perceber a letra, sem sucesso: eu tinha pouco "vocabulário" e ainda por cima o sotaque...
Aliás, só agora aprendi que este sotaque tem um papel importante na letra: "cálice" pode muito bem ser interpretado como "cale-se"! Na altura o Brasil ainda vivia numa ditadura e percebi que a canção foi mesmo um protesto (pouco) velado contra o regime, acentuado pela pausa entre: "Pai, afasta de mim este cálice/cale-se (3x!)......de vinho tinto de sangue". Genial!



Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga?
Tragar a dor engolir a labuta?
Mesma calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira tanta força bruta

Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo disel
Me embriagar até que alguém me esqueça

4 comentários:

Maria disse...

É isso mesmo.
Tens aqui o outro clip
http://ocheirodailha.blogspot.com/search?q=c%C3%A1lice+II

;)))

Rui Mota disse...

Rini,

De facto a música/músicos e arranjos estiveram bem, mas a peça...
Mesmo dando de "barato" que se trata de um "musical", não só a maior parte das letras não têm nada a ver com a peça, como a "falta" de textos do Zeca, fazem mesmo muito falta!. E, depois, porquê aquele título (O que faz falta) se nem a canção lá estava?...
Resumindo, um espectáculo simpático, mas fraquito, temos de ser honestos. O Lope de Vega merecia mais.

Rini Luyks disse...

Rui M., eu nem estive muito atento ou até preocupado com a inserção das músicas na narrativa de Lope de Vega, pois estava preparado para um "trabalho de recursos" por causa do cancelamento das músicas de Zeca Afonso a 10 dias da estreia. (Além disso tenho que confessar que mesmo após 20 e tal anos em Portugal continuo a ter alguma dificuldade de entender português cantado, e ainda por cima português do Brasil...será sempre a minha segunda língua).
Concordo, temos de ser honestos, mas também temos de ajustar as expectativas à realidade: o espectáculo tem muito poucos meios (minha conclusão após os incentivos ao público, também neste blogue, para comprar bilhetes com antecedência e desconto para o espectáculo ser auto-suficiente em termos de custos).

Há um ano e meio fui convidado (em cima da hora, por isso tinha de recusar) para o musical "Cabaret" no teatro Maria Matos, um contrato de sete meses com cachet fantástico, IRS e segurança social já pagos (e não no escalão mais baixo), só que este espectáculo tinha imensos apoios e subsídios, direito a concurso televisivo em horário nobre para apurar a protagonista, etc.
Só trabalho pontualmente em teatro, mas já percebi que é esta a realidade em Portugal...
Ouvi falar Carlos Fragateiro que o próximo espectáculo no Villaret vai ser um musical sobre Eusébio!
Mais palavras para quê? Sucesso garantido, talvez...:)

Unknown disse...

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