19/11/2009

Mário Barradas (1931-2009)




Em 1975 o Mário Barradas convidou a minha mãe para fazer parte da fundação do Centro Cultural de Évora (o grande modelo da descentralização do teatro em Portugal). Com ela fui eu e os meus irmãos e o meu caminho ficou em grande parte aí traçado. Cresci a ver um teatro com uma função social, com um propósito específico. Vivi o sonho deles de que essa arte iria transformar o mundo. Na realidade não transformou, mas em mim esse sonho ainda não morreu. Já não através de ideologias políticas, mas sim de uma esperança de acordar o melhor do Humano que há em todos os Seres. E hoje com a partida do Mário percebi que foi ele o grande responsável por isso. É a ele que devo o saber o que quero dizer com a arte que faço e o meu entendimento do mundo através dela.
OBRIGADO MÁRIO.




Elogio da Dialéctica

A injustiça avança a passo firme.

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.

Nenhuma voz além da dos que mandam.

E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes

Falarão os dominados.

Quem pois ousa dizer: nunca?

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.

De quem depende que ela acabe? Também de nós.

O que é esmagado, que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.


Bertolt Brecht


e ainda do mesmo:


“Estais realmente comprometidos no movimento das coisas que se elaboram?
De acordo com tudo o que está em evolução?
Vós próprios continuais a evoluir?
Quem sois?
Para quem falais?
A quem aproveitam as vossas palavras?”