27/10/2008

As locutoras do Metro




Depois da recente polémica sobre um aspecto visual do Metro (a destruição de painéis de azulejos da artista Maria Keil até valeu uma intervenção, demagógica como era de esperar, do Presidente da C.M. de Lisboa num programa de televisão: http://faceocultaterra.blogspot.com/, post 5 de Outubro), queria chamar a atenção para um "fenómeno" sonoro que oiço diariamente nas minhas viagens no Metro de Lisboa.
Não estou a falar das músicas e das mensagens publicitárias (que ninguém pediu) a sairem aos berros pelos altifalantes, acompanhadas por imagens em plasmas gigantes (que também ninguém pediu).
Estou a falar da locutora do Metro de Lisboa que desde o Verão passado começou a avisar os turistas sobre o perigo dos carteiristas.
"Protect your things" foi a primeira versão pouco feliz, tanto pela escolha da palavra "things" como pela pronúncia: o consoante inglês "th" foi um obstáculo intransponível para a locutora: "Protect your tings"...
A nova versão "Protect your belongings" é melhor, mas revela outro obstáculo linguístico: a pronúncia do consoante inglês "-ng". Já reparei neste problema nas minhas aulas part-time de holandês para portugueses. Muitos alunos teimam em pronunciar o "-ng" das línguas germânicas (como em "England") como o "-ng" em "Inglaterra". Assim também a locutora do Metro: ela pronuncia "belongings" como "blónguingues", com a agravante de falta de convicção na voz: se ela sabe que não está bem, por que não pergunta a alguém?
Mas não é tudo: "Protect your belongings. Pay especial attention when entering or exit the train" é a mensagem completa.
1. O verbo "to exit" existe, mas é geralmente usado para indicar uma saída teatral ou até como sinónimo de "morrer". Existe uma associação de eutanásia "Exit International", fundada pelo australiano Philip Nitschke!
2. A forma correcta do verbo devia ser "... exiting the train", mas mais simples: "leaving the train", claro.
3. Mais um problema de pronúncia: a locutora diz "ezzit" em vez de "eksit", com certeza supondo uma analogia com a pronúncia da letra x em "êxito"...
Claramente não foi um êxito, a escolha desta locutora!
Imbatível, no entanto, a locutora do metro do Porto. Logo na minha primeira viagem não consegui evitar uma gargalhada depois de ouvir a frase: "A próxima paragem tem ligação com comboio e autocarro - next stop has connection with train and bus".
É que a parte em inglês foi pronunciada assim e com grande convicção: "Next stop ass connection witterain and buzz" ou seja: "Próxima paragem - ligação anal com chuva e ruído"!

9 comentários:

Rini, mais um holandês com o dedo no ar disse...

Agora espero bem que este post não contenha erros graves de português, senão estou lixado...

Rui Rebelo disse...

essa da "ligação anal" deve ter algum propósito comercial...

Rini disse...

Já sei por que a locutora não diz: "exiting the train", com certeza tinha medo de pronunciar: "...when EXCITING the train".
Muito excitantes, os comboios hoje em dia, explica também todos aqueles assentos de cadeira gastos...

rui mota disse...

Rini,

Não digas mal do Metro, se levas com os azulejos que sobraram!

rui mota disse...

errata: se não, levas...

Rini disse...

Caro Rui Mota,

Então aqui mais uma pequena história que vivi no Metro do Porto há duas semanas.
Nove horas da manhã, viajei na linha amarela D até ao Hospital São João para dar uma "Hora da Música" da Fundação do Gil para as crianças na pediatria.
À minha frente um pai adolescente e um amigo seu, entre os dois o carrinho com um rapazito de um ano e meio, dois anos no máximo com uma mochila Woody Woodpecker, uma cena enternecedor.
Os dois adolescentes a ter uma conversa em vernáculo portuense, intercalada com os palavrões de costume. Numa pequena pausa soa de repente a voz do rapazito, para gáudio de todos os passageiros: "Fuóóda-se, carago!"
Desde pequenino se torce o pepino...

Rini disse...

errata: cena enternecedora...

Susana Serrano disse...

Grande post Rini!
Mas sabes que a maioria dos portugueses acha que tudo isso é pormenor!
Susana

Rini disse...

Cara Susana,

Infelizmente tens razão. Agora vou dizer mal de um dos meus patrões, um instituto de ensino de línguas onde dou part-time aquelas aulas de holandês já mencionadas.
A situação para outras línguas não deve ser muito melhor com as consequências que tentei indicar no post.
1. A escola admitiu recentemente reduzir a duração das aulas de 90 para 45 minutos (alegadamente por vontade dos alunos), um formato que considero inadequado em termos didácticos (e o professor tem de se deslocar à escola muito mais vezes para dar o mesmo número de aulas!).
2. No fim do curso em vez de notas o aluno só pode obter as qualificações "muito positivo, positivo ou insuficiente". Se eu fosse aluno, não me sentiria muito motivado por causa disso.
3. Com todo o respeito pela profissão: mulheres a dias ganham mais por hora do que um professor de línguas naquela escola...
4. Consequência: grande parte dos professores são estudantes à procura de um (pequeno) rendimento extra.
Mesmo assim o instituto é reconhecido nacional e internacionalmente e os certificados atribuidos têm valor curricular.
Está explicado o "ezzito" da locutora do Metro....