28/05/2012
17/05/2012
Passagem pela Primavera Global
O que quis dizer com o seguinte comentário a um dos posts no Facebook group “Primavera Global” é que para mim as manifs em todas as suas aparências, sendo necessárias, não são suficientes como protesto, pois não põem em causa o Sistema que provoca todos os males, são absorvidas pelo próprio Sistema, não são uma ameaça para a “democracia totalitária”, uma temática já abordada em 1964 pelo filósofo Herbert Marcuse em “One Dimensional Man” e outros textos.
Defendo a Desobediência Civil, a não-colaboração não-violenta em todas as suas possíveis vertentes, uma prática já defendida há séculos (Étienne de La Boétie – séc. 16, Henry David Thoreau e Tolstoi - séc. 19), até aos nossos dias Gandhi, Martin Luther King, Dalai Lama…
Passagem pela Primavera Global
No domingo à noite passei pelo Parque Eduardo VII / acampamento Primavera Global com o meu acordeão nas costas, ambiente de tertúlia/debate, cozinha vegetariana, uma “árvore dos pecados”, um espaço Gandabaile, onde não toquei porque estava cansado após uma actuação (tipo ensaio) de uma hora e meia com um clarinetista, precário também, na Rua do Carmo, actualmente um local de trabalho ao fim de tarde/noite quando não há outro ou seja: frequentemente.
Rendimento no chapéu: 12 euros e 43 cêntimos, a dividir por dois, costuma ser um pouco melhor...
Outras entradas no diário precário deste mês de Maio:
- malabarismos contabilísticos cinzentos para tentar salvar dois espectáculos para duas Câmaras Municipais a exigir Declarações de Não-Dívida, agora não só às Finanças mas também à Segurança Social (novo para mim), uma complicação, porque desde 1 de Janeiro 2011 a minha relação com os Serviços da Segurança Social é de Desobediência Civil Assumida http://anacruses.blogspot.pt/2011/03/war-zone-ii.html , texto que enviei aos referidos Serviços com acusação de recepção pelos mesmos;
- interrupção pela polícia no dia 1 de Maio às 17h00, após queixa anónima de vizinhos, dum ensaio caseiro (não há dinheiro para ensaiar em estúdio) do Tchekhov Trio (composição do trio: 1 contrabaixo, 1 clarinete, 1 acordeão, não amplificados) a preparar a estreia no Adufe Bar no sábado passado (próximo espectáculo em Junho na Casa Conveniente, a anunciar em breve); ameaça de multa de 150 euros em caso de recidiva;
- interrupção pela Polícia Municipal da minha actuação na Rua do Carmo, dia 3 de Maio às 21h30, após queixa anónima. Fui abordado por dois polícias, montados em Segway human transporters “sempre em pé” (crisis? what crisis?), um deles, um extra-terrestre preto com capacete branco perguntou-me: “Where do you come from?” Tentação de responder: “I’m from Mars. And you, where do you come from?”; ameaça de multa 150 euros em caso de recidiva.
Um músico de rua em Lisboa deve pagar à Câmara uma taxa de 350 euros, chamada pelo funcionário de serviço: “taxa de desincentivo” (que não haja dúvida), mais uma taxa de aluguer de um metro quadrado de rua (ouvi dizer), também de várias centenas de euros.
Comparação: Há cidades (Londres, Sydney) onde a Câmara PAGA músicos para tocar na rua (ouviu, Exmo. Sr. António Costa!?).
07/05/2012
14/04/2012
Centenário de Robert Doisneau (1912 - 1994)

O fotógrafo Robert Doisneau nasceu há cem anos.
Aqui a sua imagem mais famosa: "O beijo do Hotel de Ville" (1950)
"As maravilhas da vida cotidiana são tão emocionantes. Nenhum director de filmes pode organizar o inesperado que você encontra na rua" - Robert Doisneau
http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Doisneau
07/04/2012
"Pour un flirt" - Michel Delpech (1971)
Quando andávamos todos com calças à boca de sino...la la la la la la...pois é...
26/03/2012
A Morte de Danton no D. Maria, até 22 de Abril

Tradução Maria Adélia e Jorge Silva Melo
Com Miguel Borges, Pedro Gil, Sylvie Rocha, João Meireles, Maria João Pinho, Rita Brütt, Afonso Lagarto, Alexandra Viveiros, Américo Silva, António Simão, Elmano Sancho, Estêvão Antunes, Gustavo Vargas, Hugo Samora, Joana Barros, João Delgado, João de Brito, José Neves, Luís Moreira, Marco Trindade, Mafalda Jara, Mirró Pereira, Nuno Bernardo, Nuno Pardal, Pedro Luzindro, Pedro Mendes, Tiago Matias, Tiago Nogueira, Ricardo Neves-Neves, Rúben Gomes, Rui Rebelo, Vânia Rodrigues e estagiários da ESTC (Bernardo Nabais, Damião Vieira, Daniel Viana, Diogo Tormenta, Filipe Velez, Isac Graça, Ivo Silva, João Pedro Mamede, João Ventura, Pedro Loureiro, Rafael Gomes, Ricardo Teixeira) Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Luz Pedro Domingos Direcção Musical Rui Rebelo Assistência Leonor Cabral Encenação Jorge Silva Melo Em Co-Produção com o Teatro Nacional D. Maria II /Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura/ Artistas Unidos
No Centro Cultural Vila Flor (Guimarães) 2 e 3 de Março de 2012
No Teatro Nacional D. Maria II (Sala Garrett) de 15 de Março 22 de Abril de 2012
Danton Sabemos tão pouco um do outro. Somos elefantes de pele grossa, estendemos as mãos, mas é uma perca de tempo, roçamos só os nossos couros um contra o outro - estamos muito sós.
Georg Büchner, A Morte de Danton
Pretender fazer A Morte de Danton, o enigmático texto de Georg Büchner é desejo profundo de quem começou a dirigir espectáculos nos velhos anos 70 daquele outro século, sanguinário também. Porque é na Morte de Danton que se lançam todas as questões do teatro que depois nos viria a interessar, é nela que a herança de Shakespeare é ultrapassada e o seu sopro histórico absorvido. Peça desequilibrada, insólita, premonitória, desarrumada, desalinhada - em que às cenas de multidão se sucedem as insónias mais íntimas, em que a História é vista como um pesadelo nocturno, peça de um negro pessimismo, é a peça sangrenta de um rapaz fixando a morte. E a mim sempre me interessaram os escritos de juventude. Do jovem Brecht à jovem Sarah Kane, do jovem Harrower ao jovem Fosse ou ao José Maria Vieira Mendes - tenho-me encontrado sistematicamente entre aqueles que afinam ainda a voz, que ainda não encontraram o equilíbrio formal, que ainda sangram. E A Morte de Danton é esse texto: as convulsões da História vistas por um rapaz perplexo, aflito, inseguro, perante a morte.
Jorge Silva Melo
A peça segue o destino de George Danton, poderoso orador e líder das forças antimonárquicas pós-revolucionárias, que se volta contra o poder exercido pelos seus correligionários (nomeadamente Robespierre) e tenta parar as medidas que trazem tanto sofrimento ao povo. Robespierre manda prendê-lo e usa o Tribunal para condenar Danton e toda a oposição à morte, consolidar o seu poder e chacinar inúmeros milhares de homens, mulheres e crianças. Mas, “em vez de um drama, em vez de uma acção que se desenrola, se intensifica e enfraquece, A Morte de Danton segue os últimos sobressaltos e os últimos estertores que precedem a morte”, escreveu Karl Kutzov, mal leu o texto que Büchner, lhe enviou. O sofrimento e a morte ocupam um lugar preponderante no drama: a morte seria uma “doença que faz perder a memória” , ela é “a encantadora senhora Putrefacção” “o grande manto sob o qual todos os corações deixam de bater e todos os olhos se fecham”; uma realidade obcecante, que as pessoas desafiam e temem. Sofrer é um pensamento insuportável: “Não receio a morte, mas a dor, ela é o único pecado, e o sofrimento é o único vício”.
Jean-Louis Besson, Le thèâtre de Georg Büchner
Büchner, apaixonadamente humano, politicamente rebelde, manifestando-se com impaciência, queria claramente que a forma da sua peça se ajustasse às suas visões radicais das personagens, da política e da história. A Morte de Danton é a primeira peça a começar depois do seu clímax. O destino do protagonista já está mais que decidido antes de a peça começar. A peça poderia igualmente chamar-se Danton a Morrer. A peça ainda nem tem um minuto e já nós estamos completamente imersos nela. Ao longo da peça, cenas longas e curtas, activas e introspectivas quase se atropelam umas às outras. A ideia da fusão de cenas através de mudanças de luzes, algo muito familiar ao teatro de hoje - e, claro, ao cinema - era rudimentar num teatro que ainda não tinha, nem tinha sequer concebido, a iluminação eléctrica.
Stanley Kauffmann, Büchner: A Revelation
12/03/2012
Amina Alaoui - Lamento de Tristan
No CCB, quarta-feira dia 14 às 21h00.
"Depois de colaborar num registo com Jon Balke, Arco Iris marca a estreia de Amina Alaoui no catálogo da ECM com um projeto próprio. Cantora versátil e de influências diversas, Alaoui, que nasceu em Fez, explora as relações entre o flamenco, o fado e a música do Magrebe e do al-Andalus. É uma música quente e exótica, cujas sonoridades nos soam estranhamente familiares."
Amina Alaoui voz, daf
Saïfallah Ben Abderrazak violino
Sofiane Negra oud
José Luis Montón guitarra flamenca
Eduardo Miranda bandolim
Idriss Agnel percussão, guitarra elétrica
10/03/2012
"Whiter Shade of Pale" - Procol Harum (1967 & 2006)
Quase 40 anos separam as duas versões do "top-hit" dos Procol Harum, segundo a Wikipedia a música mais tocada no Reino Unido nos últimos 75 anos, com mais de 1000 versões "cover" Espantoso o vocalista Gary Brooker, quem não gostaria de conservar a voz assim?
"We skipped the light fandango
turned cartwheels 'cross the floor
I was feeling kinda seasick
but the crowd called out for more
The room was humming harder
as the ceiling flew away
When we called out for another drink
the waiter brought a tray
And so it was that later
as the miller told his tale
that her face, at first just ghostly,
turned a whiter shade of pale
She said, 'There is no reason
and the truth is plain to see.'
But I wandered through my playing cards
and would not let her be
one of sixteen vestal virgins
who were leaving for the coast
and although my eyes were open
they might have just as well've been closed
And so it was that later
as the miller told his tale
that her face, at first just ghostly,
turned a whiter shade of pale."
09/03/2012
Livraria Portugal (1941 - 2012)

A Livraria Portugal na Rua do Carmo fechou na semana passada e ontem à noite assisti ao vivo à demolição do interior.
Mais um histórico espaço de cultura que desaparece, resistiu ao incêndio de 1988, não resistiu a esta crise.
Algumas imagens:
http://oarqueolojista.blogspot.com/2012/02/livraria-portugal.html
Entrevista com o funcionário mais antigo Joaquim Carneiro e sócio António Machado:
http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=65c6abb8-3576-4b1d-b4ca-115e8372841c
23/02/2012
José Gil sobre o Acordo Ortográfico

Uma língua é um organismo vivo e, segundo o seu contexto social, geográfico, histórico, demográfico, económico, geopolítico, transforma-se imprevisivelmente. É a multiplicidade livre dos movimentos que fazem evoluir naturalmente uma língua que permite o surgimento de casos extremos, geniais, que subvertem a língua ao ponto de inventarem novas sintaxes dentro da sintaxe habitual: esses casos, revolucionários, como o de Guimarães Rosa ou de Pessoa, só são possíveis quando o espaço virtual de liberdade interna da língua se solta e ousa, para além do uso rotineiro e correcto da gramática.
Então nascem novas gramáticas (como a do Livro do Desassossego ou a do Grande Sertão: Veredas), novas palavras e expressões, os horizontes da língua abrem-se indefinidamente (até onde Pessoa poderia ter ido para além de onde foi? Ninguém duvida que poderia ter ido mais longe ainda, mas ninguém sabe para onde e até onde teria ido). Então descobre-se a maravilha de ser possível uma outra expressão linguística, um insuspeitável sentido das coisas, um outro pensamento. E uma outra expressão é uma dimensão até ali escondida, por dizer e para ser dita, da liberdade. Porque impede (ou entrava) tudo isto, o AO é repressivo e destruidor.
MAS NÃO SÃO Só AS POSSIBILIDADES dos casos extremos que são afectadas. Porque todos nós vivemos nesse meio natural das distâncias soltas e invisíveis que a língua cria a cada instante: no calão (língua do corpo), no humor, no jogo certeiro de um argumento, na invenção, por uma criança, de um palavrão. Vivemos mergulhados na liberdade da língua, para a qual permanentemente contribuímos. É que nós dizemos mesmo o que não sabemos que dizemos. Através do inconsciente da língua, o sentido físico, arcaico, dos fonemas, as sensações ligadas às letras, a doçura e a aspereza do ar inspirado e expirado no som inarticulado ou palreado pelo bebé são retomados sem o saber pelo adulto na palavra articulada. A ortografia é afectiva, polissémica, racional e fugidia, conectiva e disjuntivas (aliterações, ressonâncias, ritmos, cromatismos, etc), indutora de associações com novas palavras e construindo non-sens. Induz um espaço indefinido de criação. Como eu amava «auto-retrato» e me sinto esmagado pelo «autorretrato»! Porque contraria este movimento natural da escrita, o AO é néscio e grosseiro.
UM ÚLTIMO EFEITO, talvez o mais grave: o Acordo mutila o pensamento. A simplificação das palavras, a redução à pura fonética, o «acto» que se torna «ato», tornam simplesmente a língua num veículo transparente de comunicação. Todo o mistério essencial da escrita que lhe vem da opacidade da ortografia, do seu esoterismo, desaparece agora. O fim das consoantes mudas, as mudanças nos hífenes, a eliminação dos acentos, etc, transformam o português numa língua prática, utilitária, manipulável como um utensílio. Com se expusesse todo a seu sentido à superfície da escrita. O AO afecta não só a forma da língua portuguesa, mas o nosso pensamento: com ele seremos levados, imperceptivelmente, a pensar de outro modo, mesmo se, aparentemente, a semântica permanece intacta. É que, além de ser afectiva, a ortografia marca um espaço virtual de pensamento. Com o AO teremos, desse espaço, limites e contornos mais visíveis que serão muros de uma prisão onde os movimentos possíveis da língua empobrecerão. Como numa suave lavagem de cérebro.
(Agradecimento à revista Visão de 16/02/2012)
Foi há 25 anos - Zeca sempre
Há tributos em vários lugares, em Lisboa na Academia de Santo Amaro em Alcântara:
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=559918
Zeca também é recordado na RTP:
http://www.rtp.pt/icmblogs/rtp/novidades/index.php?k=RTP-recorda-Zeca-Afonso.rtp&post=38251
Há 5 anos houve, muito a propósito, dois posts em simultâneo neste blogue:
- http://anacruses.blogspot.com/2007/02/zeca-afonso_23.html


